Emoções de um professor - by Sergio Viula

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by Sergio Viula
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Transcrição de uma live feita em 03/12/24 no canal Grammar Drops no YouTube. Fiz leves alterações para a melhor fluência do texto, mas procurei manter o original ao máximo.


Emoções de um professor

Live aqui (gravada)


Estou aqui ao vivo, algo que não costumava fazer com frequência. Na verdade, desde que montei o canal, acho que fiz três lives, e esta é talvez a quarta. Como as lives ficam gravadas, acredito que será interessante compartilhar algumas reflexões, mesmo que não haja público ao vivo no momento. Como meu canal não é muito grande, não é tão simples iniciar uma live e ter 3 ou 4 mil pessoas assistindo, o que é comum em canais maiores, com 30 ou 50 mil seguidores. Meu canal tem pouco mais de 1000 inscritos, é um canal humilde, mas resiliente. Acredito que os conteúdos que publico aqui realmente ajudam as pessoas.

Inclusive, acabei de receber um comentário de um seguidor chamado Bruno. Ele me escreveu algo como: "Sérgio, nunca pare de publicar, seus vídeos são sempre muito interessantes, e espero que seu canal cresça." Isso me tocou profundamente. Então, já que o tema desta live é “Emoções de um professor”, quero começar com esse comentário do Bruno, que recebi há cerca de 10 minutos.

Antes de falar sobre algumas das minhas emoções mais recentes no magistério, quero mencionar que publiquei hoje um vídeo sobre aquele garotinho que virou meme, conhecido como "Vogue Boy". Ele ficou famoso dançando a música "Vogue" da Madonna. Vocês provavelmente conhecem a música, mas talvez não saibam o que aconteceu com ele. Ele era muito novinho, devia ter uns 9 anos na época. Então, fiz uma pesquisa sobre ele e descobri várias coisas que compartilhei no vídeo. Não conto a história toda no vídeo, porque é longa, mas deixo o link para quem quiser ler a história completa depois. Também compartilhei o Instagram dele na descrição do vídeo.

A propósito, hoje é aniversário da minha mãe. Talvez vocês possam achar que sou um filho desnaturado, mas eu comemorei o aniversário dela na sexta-feira, quando a levei para almoçar. Foi um almoço em família, com meu pai, minha mãe e o Andre. Meus pais são idosos, meu pai tem 82 anos e minha mãe, 77. Fomos ao restaurante Faenza, em Copacabana, um lugar maravilhoso onde se pode comer à vontade, com várias opções de carnes, saladas e até comida japonesa. Quem é vegano não vai sentir falta de nada, pois há muitas opções. Não é um lugar barato, mas foi uma experiência muito boa. Depois, fomos ao shopping center e fizemos compras. Foi um dia maravilhoso! Faço esse comentário porque hoje é o dia do aniversário dela de fato, e eu me lembrei disso agora.

Agora, sobre as emoções de um professor. Ontem foi o último dia de aula na instituição onde trabalho. Trabalho numa escola de inglês tradicional aqui no Rio, além de dar aulas particulares. Uma das emoções mais marcantes foi com um aluno meu, que, durante a última aula, me pediu para ensinar algo fora do conteúdo programático, já que tínhamos encerrado o curso. Ele sugeriu trabalharmos com a "saga de Troia", que inclui músicas que estão no YouTube. Eu fiquei muito animado com a sugestão e preparei uma aula sobre isso, incluindo um texto de fundo sobre a guerra de Troia, que eles tiveram que completar com preposições. Também assistimos a um clipe animado sobre a guerra, e discutimos as músicas da saga. Foi uma experiência muito interessante. A turma, que não conhecia a saga, acabou se interessando muito. Eu senti que a aula foi além de só ensinar inglês, foi também uma oportunidade de refletirmos sobre história, mitologia e ética.

No final da aula, quando estávamos nos despedindo, um dos alunos, o João, veio até mim e me disse: "Professor, lembra quando você pediu para a turma dizer o nome de alguém a quem admirava? Eu não tinha ninguém, mas agora eu tenho alguém. Eu admiro você." Isso me tocou profundamente. Ele explicou que, através das aulas, não estava apenas aprendendo inglês, mas também coisas sobre a vida. Eu fiquei tão emocionado que nos abraçamos. Para mim, o fato de ele ter dito isso foi mais importante do que qualquer conquista meramente acadêmica. A sensação de que meu trabalho pode ter impactado positivamente a vida de um aluno é impagável.

Esses momentos, em que vejo a transformação de meus alunos, me fazem acreditar que vale a pena ser professor. É cansativo, é desafiador, mas é extremamente gratificante saber que estou contribuindo para o crescimento e a reflexão deles. Isso me faz acreditar que a educação vai além do conteúdo. Ela transforma vidas, inspira, e é isso que me faz continuar trabalhando todos os dias, mesmo com todas as dificuldades.

Por fim, vou contar uma última história, de um aluno mais novo, que também me marcou muito. A sensação de ser um agente de mudança na vida de alguém, seja qual for a idade, é única e inesquecível.

Era um garoto de 15 anos que fazia curso avançado. Ele tinha acabado de terminar a segunda etapa do curso e isso o posicionava bem na metade do nível avançado. Quando chegou à sala de aula, estava meio estranho, não estava tão alegre e sorridente. Ele não deu um "boa tarde" tão feliz. Aí você já fica com a pulga atrás da orelha, porque, quando você é sensível às necessidades humanas, pensa: "Será que aconteceu alguma coisa lá fora?"

Logo em seguida, ele deu uma bronca em um colega, porque o colega tinha tirado a mochila dele da cadeira enquanto ele foi ao banheiro. O colega pensou que a mochila fosse de um garoto sentando ao lado, e, por isso, colocou a mochila uma cadeira adiante. O aluno, ao ver isso, ficou completamente alterado, deu uma bronca no colega – não falou palavrão, mas foi bem ríspido.

Eu virei para ele e falei: "Opa, um momento pessoal. Vamos parar tudo por um segundo." Eu até parei de falar inglês com eles. Normalmente, eu falo inglês o tempo todo com essa turma, porque eles são avançados, e consigo falar do início ao fim. Qualquer coisa que eles não entendem, eu explico pontualmente. Então, virei para ele e falei: "Você não costuma ser assim. Tem alguma coisa acontecendo com você fora da sala? Pergunto isso porque o fulano aqui é uma pessoa maravilhosa; ele é um menino fantástico, e você é outro."

Peguei o rosto dos dois, um em cada mão, e falei: "Eu amo vocês, vocês sabem disso. Esta turma para mim é como se fosse os filhos que eu não tive. Eu tenho filhos, mas eles são os filhos que eu não tive, porque são 11. Eu não vou ter 11 filhos... Vou ter uma turma de futebol, que história é essa?" Quando eu tive filhos, foi lá atrás, quando eu tinha meus 20 e poucos anos. Hoje em dia, nem sei se teria filhos. Provavelmente, não teria, porque a vida lá fora está muito esquisita. Mas, sim, tive filhos. Quem me conhece sabe da minha história e o quanto me orgulho dela, por várias razões.

Eu continuei: "Vocês são como os filhos que eu não tive. E eu sinto que vocês amam uns aos outros como se fossem irmãos. Vocês se tratam aqui melhor do que muitos irmãos se tratam em casa. E comigo também. Já teve gente que me chamou de 'father figure', figura paterna, porque parece que eu trato todos assim, como se fossem meus próprios filhos."

Só para vocês terem uma ideia, teve um dia em que cheguei na aula e, do nada, distribui doces para todos. Falei: "Gente, fui a uma loja de Halloween e pensei: vou levar uns docinhos para eles, nem é Halloween ainda, mas eles merecem." Quando eles receberam os docinhos, ficaram super felizes. Eram aquelas balas azedinhas, balas de goma. Foi uma festa.

Eu então virei para o aluno e falei: "Alguma coisa aconteceu, fulano? Olha, não fica com raiva do Sicrano. Dá um tempo para ele processar o que aconteceu. E Beltrano, não fale assim com seu colega, porque você sabe que ele jamais mexeria nas suas coisas por maldade. Ele realmente pensou que a mochila era do colega ao lado e jogou para o canto para sentar ao lado dele." Aí, voltei para a aula, continuei a falar inglês e seguimos em frente.

Os dois ficaram numa boa. Pedi para eles apertarem as mãos um do outro, olharem nos olhos e dizerem: "Tá tudo bem, me perdoa." E continuamos a aula. Lá pelas tantas, esse aluno que tinha dado a bronca me pediu uma folha de papel em branco, porque ele precisava anotar as coisas do quadro. Ele é muito cuidadoso em anotar as coisas no livro, e, então, perguntei: "Mas cadê seu livro, Fulano? Você nunca deixa de trazer o livro." Ele respondeu: "Professor, roubaram o carro da minha mãe e o livro estava dentro."

Aí eu parei tudo e falei: "Gente, agora estamos entendendo o que aconteceu; o que o nosso colega estava passando." Ele contou que estava no carro com a mãe, quando, de repente, alguém apontou uma arma para a cabeça da mãe e os obrigou a sair do carro. O carro foi levado, com o livro dentro. A mãe dele ficou desesperada, e eles tiveram que voltar para casa de Uber. Ele estava transtornado, mas, mesmo assim, não faltou à aula. 

Gente, olha o nível de compromisso dessa turma. Isso é incrível. A mãe dele confiou que mandá-lo para a aula era melhor do que deixá-lo em casa remoendo o que aconteceu. E foi verdade, ele resolveu boa parte do problema ali, em sala de aula, falando com a gente, processando psicologicamente o que aconteceu. Claro que não estava totalmente resolvido, porque é um trauma, mas ele se sentiu mais leve depois da conversa.

Eu falei para ele: "Você é um cara maravilhoso, e o que você passou ninguém merece passar. Que sorte que você e sua mãe não foram feridos. E olha, eu já fui assaltado várias vezes nesta cidade. Isso pode acontecer com qualquer um de nós. Mas você está bem, e isso é o mais importante. E, com certeza, sua mãe tem seguro, o carro vai ser recuperado. Aproveite para estudar inglês, se prepare, e, no futuro, quando você for mais velho, talvez você consiga sair dessa cidade. A língua inglesa vai te ajudar muito. Não olhe para trás, foque no futuro, porque você tem capacidade de ir longe."

E falei mais: Se você estudar uma coisa que possa ser usada em qualquer lugar, você vai ter uma vida muito melhor no futuro."

Depois da aula, os outros alunos saíram inspirados. Eles me abraçaram, agradeceram, dizendo que a aula foi fantástica. Essa experiência foi algo que me marcou muito.

Essa turma tem uma energia incrível. Entre meus alunos particulares, uma aluna que estuda comigo há quatro anos ficou extremamente surpresa e feliz com uma aula recente. Ela me disse: "Sérgio, que aula maravilhosa! Quando a gente acha que não tem mais nada para aprender, você traz algo novo, e é fantástico!" E, para mim, ver uma aluna tão avançada, mas ainda empolgada com a aula, é uma grande satisfação.

Outro aluno lá do curso, o Andre, se comprometeu tanto que, mesmo com um falecimento na família, ele fez de tudo para não perder a aula. Ele assistiu a aula remota e sincronamente, mesmo em um momento tão difícil - o que só confirma o nível de compromisso dele com o aprendizado.

Às vezes, os alunos não sabem o trabalho que dá para se preparar uma aula. Eu passo horas planejando e pesquisando para trazer algo de qualidade para eles. Quando vejo os alunos tão engajados, isso me dá uma alegria imensa. A gente não faz isso por dinheiro, apesar de gostar muito de dinheiro, mas por ver o impacto positivo na vida dos alunos. E isso não tem preço.

Muitas vezes, os professores estão cansados, lidando com problemas pessoais, e ainda assim dão o melhor de si em cada momento. Eu já fui dar aula, mesmo não me sentindo bem, porque eu sabia que minha presença era importante para os alunos.

Por exemplo, depois que eu tive COVID, fiquei com uma tosse persistente por quase um semestre inteiro. Só não tive nada mais grave porque tomei as quatro doses da vacina. Agora, imagine um professor dando aula o semestre inteiro com tosse. Você fala, tosse, para de tossir, continua a frase, tosse de novo. Era um inferno!

O que me deixava tranquilo é que essa tosse não contaminava ninguém. O médico me garantiu: “isso é uma sequela, mas não tem nada de contaminante, pode ficar tranquilo, você não está com COVID, só tem uma irritação nas vias aéreas causada pelo vírus durante a infeção.” Realmente, foi o que aconteceu. E, claro, tomei xarope para tentar aliviar um pouco a tosse, mas nada resolveu de verdade. Usei sprays que hidratam as vias aéreas, e isso ajudou muito. Até que parou. Mas eu estava lá, dando aula.

Minha mãe teve câncer antes da pandemia. Passei um ano com ela no hospital, e ninguém sabia que ela estava doente, nem na filial. Não falei para ninguém e não pedi um único dia de folga para cuidar dela. Eu cuidei, mas sem pedir folga. Só falto se não tiver jeito, e sempre aviso em tempo hábil. Por isso, eu não admito que alguém critique meu nível de comprometimento com o trabalho. Podem criticar minha forma de fazer as coisas, mas meu compromisso é inegociável. Sou o tipo de profissional que não precisa ser supervisionado. Só preciso ser orientado, não mandado. Se sei o que tenho que fazer, eu não procrastino. Vou lá e faço.

Procrastinação é coisa de gente tola. Porque, quando você procrastina, você não resolve o problema, você cria outros. Se tem que fazer algo, faça logo. Depois, você tem tempo livre para outras coisas ou para não fazer nada. Só para citar um caso recente: uma aluna procrastinou uma avaliação e, no final, teve que correr atrás de resolver essa pendência, enquanto todo mundo da turma estava tranquilo. Mas ela teve duas semanas para fazer, e deixou para a última hora. Quando algo deu errado, ela culpou os outros. Mas a culpa foi dela, porque teve duas semanas para fazer e foi avisada sobre possíveis problemas, mas preferiu deixar para a última hora.

Eu sempre falo: faça logo, porque a última hora pode trazer imprevistos, como perder a conexão com a Internet ou alguém ficar doente. Resolva logo e faça bem feito. O seu trabalho precisa ser digno de você. E é por isso que eu recebo reconhecimento dos meus alunos, porque eu vejo meu trabalho como algo digno do meu nome. Eu não vou fazer algo mal feito, meu nome não é lixo. Mesmo que eu não faça perfeitamente, vou fazer o melhor possível e, se eu falhar, vou buscar melhorar.

Eu sei quando não fiz algo bem feito. Fico refletindo sobre como posso melhorar da próxima vez. O nome disso é senso crítico, mas sem perfeccionismo e sem desleixo. Se você fizer as coisas assim, vai aprender o máximo de cada coisa que estudar, vai encontra um sentimento fantástico de auto realização. Não entendo alunos que não se dedicam, faltam às aulas frequentemente, não fazem as lições de casa, não revisam o que perderam. Pior ainda é quando vão fazer uma avaliação e acham que estão enganando a gente. 

Eu tenho alunos brilhantes, como os da turma que trabalhou na saga de Troia. Eles fizeram uma atividade e, quando fui corrigir, os parágrafos estavam quase perfeitos, com apenas dois ou três erros. Eu fui corrigindo, explicando por que não poderia ser aquela palavra, mesmo que parecesse certa em português. À medida em que compreendiam as nuances daquela palavra ou estrutura, eles aplicavam as correções nas interações seguintes. Isso é sinal de que levam a sério o trabalho.

Eu sei que esses alunos, quando me entregam um texto, são capazes de fazer bem feito. Já outros alunos não sabem nem juntar as palavras mais básica de modo correto, mas entregam trabalhos com um inglês polidíssimo. Eles podem até se enganar achando que estão escrevendo bem, mas não estão. Provavelmente, estão utilizando inteligência artificial baseada em processamento de linguagem natural (PLN), como o ChatGPT, por exemplo. Agora, se existem aqueles que se enganam com esse tipo de coisa, é preciso dizer também que qualquer pessoa pode usar inteligência artificial para ajudar na produção de um texto, mas o texto deve ser dela, com base nas informações que ela conseguir obter através da inteligência artificial ou das ferramentas de busca. Entenda bem: isso é como fazer uma lasanha. Eu posso comprar uma lasanha pronta, mas eu sei como fazer uma lasanha do zero, camada por camada. E, claro, a lasanha feita por mim tem mais sabor, porque eu sei o que estou fazendo.

É a mesma coisa com qualquer aprendizado. Quanto mais você faz, mais você melhora. Agora, se você depende da inteligência artificial para tudo, é como se você estivesse vivendo uma vida artificial. Por isso, não deixe de aprender por si mesmo, e não se engane achando que pode trapacear seus professores. Eles sabem quando você está realmente interessado em aprender e sabem o que você é capaz de produzir com o que aprendeu até aquele momento.

Professores querem ver o seu compromisso, e sabem quando você está levando as coisas a sério. Se você não respeita a si mesmo nem aos seus professores ou colegas, você não vai aprender tudo o que deveria. A vida, especialmente no mundo corporativo, não é fácil e você vai se deparar com pessoas que sabem exatamente o que estão fazendo. Então, é melhor se preparar para isso de verdade.

Assim como médicos não conseguem salvar todos os pacientes, e bombeiros não conseguem salvar todos num prédio em chamas, um professor não consegue ensinar tudo o que pretende a todos os seus alunos o tempo todo. Para que um professor consiga ensinar, é preciso um aluno que esteja interessado em aprender. Ensinar não é uma ação que depende só de um agente. É preciso dois para dançar tango. Vale para o processo de aprendizagem. 

Então, aos professores, deixo a seguinte mensagem: Trabalhe com dedicação. Invista nas pessoas que realmente querem aprender, e se perceber que uma pessoa não está se esforçando, não importando o que você diga ou faça, siga em frente. O ensino não é um processo de mão única, tem que haver interesse e esforço de ambas as partes. E, quando isso acontece, o prazer de ensinar se torna algo muito gratificante.

Visitem o canal, tem muita coisa simples e útil por aqui. Se você usar isso a seu favor, vai crescer. Um ótimo domingo e vou ligar para minha mãe agora. Até mais, um abraço!


Nota: Para aulas individuais, envie um email solicitando informações para teachersergioviula@gmail.com.

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